Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Estética cristã como santificação

7929f_Catholic_305219201_d647c3e9fdPor Marcus Boeira

A estética moderna identifica-se com a cultuação do belo visível e imanente. Atribui-se à ela uma miscigenação de irracionalismo, sentimentalismo e antropomorfismo, dimensões simbólicas da ilustração, do romantismo e de uma parte do barroco humanista.
Porém, a dimensão estética da existência pressupõe uma relação entre o belo e a verdade do Ser muito mais profunda do que almeja o mero sensismo da cultura moderna. De fato, quando observamos a obra magistral de Duccio di Buoninsegna, retratando o mistério da revelação de Cristo, “de verbo incarnato”, é clara a manifestação de uma beleza transcendental, que não se resume a morfologia imanente, mas que transpõe o mero campo sensível, atingindo uma camada mais profunda da verdade do Ser.
De fato, a beleza de Cristo não está na sua forma física, mas na fortaleza do coração de Deus, que entrega seu Filho Unigênito para a salvação dos homens (Jo 3, 16). Esse mistério da redenção humana, tão presente no ato divino da doação, expõe que a revelação também se mostra como revelação da Verdade, Verdade essa que congrega a manifestação do Belo e do Amor, categorias concomitantes na Unidade do Deus Trino.
Deus é Amor. Deus é a Verdade. Deus é o Belo. Em Deus, essas categorias são atributos eternos. Mas, e em nós? Como chegamos ao Belo de Deus?
Hans Urs Von Balthasar nos diz que a Beleza de Deus é a própria Glória, consumação da Revelação na Pessoa de Jesus. Ora, se o homem é criatura de Deus, então os atributos de Deus estão, mesmo que imperfeitamente, presentes em nós. Há algo de belo, de justo e de verdadeiro em nós. Tais atributos, quando presente no homem, estão no campo do possível, daquilo que pode vir a ser, enquanto em Deus simplesmente “é”. Diz o autor que “os transcendentais penetram em todos os seres” e que, portanto, eles se “interpenetram” no ser humano. Assim, o fato de que esses atributos estão em nós já esclarece que a unidade de nosso caráter consiste na integração e moderação desses atributos em nossa forma existencial.
Mas, o que efetivamente define a existência humana? São os sentidos ou outro aspecto de nossa constituição essencial? Se a beleza de Deus em Cristo não é terrestre, como disse o autor acima, mas a própria Glória revelada, então Verdade e Beleza também identifica-se com dor, sofrimento, suportação. Até por que sendo Deus o próprio Amor, é evidente que o “Amor tudo suporta” (1 Co 13, 6). E por quem a glória de Cristo suportou a Cruz? Pelo homem. Assim sendo, se quisermos conhecer a glória, devemos contemplar o Belo não esteticamente visível, mas o Belo que está para além de nossos meros sentidos. Um Belo transcendental, invisível, infinito, que se revele enquanto manifestação concreta dos fundamentos mesmos da constituição de nosso ser.
Há dentro do homem uma angústia, um vazio existencial, um mistério que condiciona o homem para o sentido de sua existência. Essa verdadeira nostalgia nos impele a querer conhecer uma Beleza que ao mesmo tempo não nos seja inteiramente conhecida e que se manifeste em nós mesmos no ato de nossa constituição. Claro que, para tanto, é preciso que o homem não se resuma totalmente a si mesmo, mas que transponha seu próprio campo de possibilidades. Nesse caso, descobrirá por analogia, identidade e semelhança que Beleza e Verdade são idênticos e que tais atributos pertencem ao Ser, enquanto se manifesta nos diferentes seres.
Essa mesma nostalgia de querer conhecer uma Beleza para além de si não se determina segundo os sentidos, mas de acordo com o mistério que habita no homem e que o leva a transcender à si mesmo, na busca pela perfeição. Uma nostalgia que revela um enigma; enigma esse que torna o homem apto a mergulhar profundamente nos fundamentos mesmos de sua existência, de sua realidade, numa interação tão bem acabada com a Verdade que a Glória de Cristo se manifesta em toda a sua face. A face do homem encontra na face de Cristo sua finalidade, seu telos. A beleza de Cristo, a Glória de Deus revelada em carne, agora aparece para o homem como meta. E o caminho não está fora, mas dentro do próprio homem, ou como diz Agostinho,
“tratava de te imaginar, um homem, e que homem, como Deus sumo, único e verdadeiro. Desde o mais íntimo do meu ser e acreditava em ti como incorruptível, inviolável e imutável. Sem saber nem de onde nem por que, via com toda transparência e estava seguro de que tudo o que é suscetível de corrupção é pior que o que não pode ser corrompido. Sem duvidar de nada, dava prioridade ao inviolável sobre o violável, e considerava superior o imutável ao mutável”
(Agostinho, Santo. Confissões. Livro VII, 1).
Assim, a rota dramática da existência humana rumo a Verdade é nada menos senão uma relação “erótica” entre Cristo e sua Noiva – a Igreja-, em que a Glória de Deus se manifesta no amor, no perdão e na graça de viver em santidade. A santidade é a imagem da Glória de Deus na terra, na história e, portanto, no tempo, pela vida dos santos. Santa Teresa D´Àvila, por exemplo, nos dá prova de sua intimidade com Jesus no seu “Castelo Interior”, ao dizer que
“Como vos poderei descrever a riqueza, os tesouros e os deleites que há nas quintas moradas? Creio que seria melhor não dizer nada das que faltam, pois não se saberia descrevê-las; o intelecto não é capaz de captá-las nem as comparações servem para explicá-las. Para esse fim, são muito baixas as coisas da terra”.
E completa dizendo:
“Senhor meu, enviai do céu luz para que eu possa esclarecer de algum modo essas Vossas servas”.
(D´àvila, Santa Teresa. Castelo Interior: Quintas moradas. Cap. 1).
Ora, o que seriam as moradas se não os castelos de nosso coração, construídos pela graça e pela lapidação de Deus em nós? Ao estilo barroco espanhol, aliado a um misticismo típico de seu tempo, a Santa do Século XVI deu provas de que a estética de Deus se revela em nós, pela abertura de nossa alma à transcendência, que em suma se manifesta em um mergulho profundo para dentro de nós mesmos, como fez o Bispo de Hipona ao perceber que o enigma dentro dele é o que o possibilitava conhecer a si mesmo e ao que era incorruptível como algo preferível em comparação ao que é da terra, ou melhor, a beleza desse mundo. A estética transcendental é tão concreta quanto as artérias do nosso coração, poderíamos dizer.
Esse conhecimento da Beleza de Deus, da Glória, não se faz pelos sentidos. Sim, pela graça, por uma luz que se irradia para dentro de nós, fazendo nosso rosto resplandecer como o de Moisés, quando voltou do Sinai. São Paulo, quando chegou a Atenas para pregar no areópago, disse aos gregos que pregaria sobre o “Deus desconhecido” (Atos 17, 23). Veja-se que São Paulo não pregou acerca da estátua posta na praça, mas sobre o Simbolizado daquele ícone, sobre o Ser Necessário. A estética tratada por Buoninsegna, como em toda a arte cristã, manifesta uma forma simbólica que não se resume à forma convencionada da arte imanente. Não! Procura, na verdade, demonstrar, mesmo que imperfeitamente, o nexo entre o enigma que está em nós e a Revelação mesma da Glória de Cristo. A Glória de Jesus, não sendo beleza para o mundo (veja-se a imagem da Cruz, por exemplo), mas para a Cidade de Deus, mostra-nos que, se quisermos conhecer a Cristo, precisamos conhecer a nós mesmos, a partir dos mistérios que habitam em nós e nos definem como criaturas de Deus, abertas para o sofrimento e a dor.
A partir disso, da mortificação pessoal, o conhecimento de Cristo será maior por que, aí, estaremos vivendo como Ele viveu. Poderemos, aí, chegar ao ápice de nossa existência: conhecê-lo face e face, e ver tal como somos conhecidos por Ele mesmo, como diz o Apóstolo: “por que, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido” (1 Co 13, 12).
Portanto, a arte cristã não se resume ao mero desenho simbólico das Catedrais e Mosaicos. Seu sentido não está exatamente na arquitetura ou mesmo na pintura. Seu sentido pressupõe um vínculo constitutivo entre a estética teleológica e a ética teológica: uma pedagogia do espírito mediada pela iconoclastia de Deus em nosso coração. Em suma, como diz o Papa Bento XVI,
“nada pode pôr-nos num contato tão íntimo com a Beleza de Cristo quanto o mundo de beleza criado pela fé e a luz que brilha nas faces dos santos, através dos quais Sua própria luz se torna visível”.
Fonte: Círculo de Estudos Políticos

 

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Publicado às 22 22America/Belem julho 22America/Belem 2014 por em Arte, Civilização, Marcus Boeira, Religião e marcado , , , .
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