Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O enigma da Bastilha

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Revolução francesa

Por José Carlos Castilho de Andrade

A Revolução Francesa marca o fim dos Tempos Modernos e o início da Época Contemporânea. A queda da Bastilha, acontecimento que divide duas eras históricas inteiramente diversas, ocorreu a 14 de julho de 1789, quando a velha fortaleza medieval capitulou ante o populacho amotinado, que nela via o símbolo da ordem de coisas que queria destruir.

Compreende-se que a Bastilha, em torno da qual pairavam lendas tão sinistras e emocionantes, tenha atraído a atenção dos historiadores e a curiosidade do público. A Bastilha Santo Antonio, que depois teve tão triste fama, começou a construir-se em 1370, no reinado de Carlos V, chamado o Sábio. Era então apenas uma fortificação para proteger contra os ataques inimigos a entrada de Paris pela Porta Santo Antonio. Já no século seguinte recebia esporadicamente prisioneiros, pelo menos os de guerra, o que não impedia os reis de nela realizar grandes festas e hospedar personagens ilustres em visita à cidade.

(…) A principal nota distintiva da Bastilha era não ter nenhuma das características de uma prisão, no sentido próprio da palavra. “Meu desejo — dizem as ‘ordens do rei’ — é que vos façais conduzir ao meu castelo da Bastilha”. Mais do que prisão, era ela um castelo forte, onde Sua Majestade recolhia súditos cujo comportamento lhe desagradava.

(…) Essa é a verdade sobre a Bastilha. Garantem-no a idoneidade e a autoridade do insigne Funck-Brentano, de cuja obra extraímos dados históricos. Garantem-no as fontes de que se serviu aquele historiador: arquivos da famosa prisão de Estado, compostos de milhares de documentos, que foram reunidos na Biblioteca do Arsenal, em Paris, bem como as memórias de numerosos antigos prisioneiros. Como então a Bastilha se tornou símbolo da opressão, da tirania, e sinônimo de prisão aspérrima e desumana?

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A Queda da Bastilha

A explicação se encontra na propaganda revolucionária, que aliás também conseguiu divulgar uma imagem adulterada de tantas outras instituições do Ancien Régime.

Já nos últimos decênios que antecederam a Revolução, a lenda da Bastilha criara raízes na fantasia popular. “A bastilha — diz Restif de la Bretonne — era um terrível espantalho, para o qual não me atrevia a olhar quando, ao cair da tarde, passava pela rua Saint-Gilles”. Chevalier, major da Bastilha, dirigindo-se ao lieutenant da polícia, fala das histórias que circulavam a respeito da prisão: “Ainda que completamente falsas, julgo-as perigosas, pela repetição que delas se faz há muitos anos”.

De resto, o mistério que da Bastilha se criava oferecia campo propício ao desenvolvimento de toda sorte de lendas. Quando um preso entrava na fortaleza, em uma carruagem com as cortinas descidas, os soldados da guarda deviam virar-se para a parede ou baixar as viseiras. Todo o pessoal da guarnição estava obrigado a guardar o mais absoluto segredo sobre a identidade dos prisioneiros e a vida que levavam. Ao ser posto em liberdade, o preso era convidado a assinar um compromisso de nada revelar do que tivesse visto no interior dos formidáveis muros do castelo. Diga-se de passagem que muitos recusavam-se a assinar tal compromisso, sem que isso retardasse sua libertação. Outros contavam, a quem os quisesse ouvir, tudo que sabiam e muito do que não sabiam, não constando que tenham sido incomodados por esse motivo.

Já ficou dito que a autoridade do rei na França de antes da Revolução era a condição mesma da ordem. Seus fundamentos eram a tradição, além do amor e o temor do povo. Amor aos filhos pelo pai, a autoridade real tendo se originado historicamente da autoridade paterna. E temor igualmente filial, resultante mais da grandeza, da majestade e do esplendor da realeza, do que propriamente de sua força afetiva.

14 de julho de 1789 – Queda da Bastilha. Apresentar a Bastilha como um temível instrumento de opressão e tirania foi um dos muitos meios de que se valeu a propaganda revolucionária para resfriar o amor do povo pelo rei.

Mas, por outro lado, isso aumentava o temor, que era justamente o freio daqueles que, constituindo a borra da população, eram os mais seguros cooperadores potenciais da obra revolucionária. Levando essa mesma ralé a derrubar aquilo que lhe apresentavam como símbolo do poder real, a Revolução conseguiu fazê-la sentir a fraqueza do rei e sua própria força.

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Comemoração da Queda da Bastilha

Perdido o respeito pela autoridade paternal do rei, o povo entregar-se-á a todos os excessos, e a anarquia estender-se-á pela França. Para reimplantar a ordem, Napoleão usará um guante de ferro e criará a formidável máquina administrativa e policial do Estado moderno.

A verdadeira importância dos acontecimentos de 14 de julho de 1789 reside no enorme impulso que deu à transição da velha França tradicional e orgânica, com suas liberdades e franquias, para a França administrativa e policial dos tempos modernos. O enigma está em que ainda hoje a data seja comemorada como a aurora da liberdade.

Fonte e íntegra do texto: Revolução e Contra-Revolução

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Publicado às 14 14America/Belem julho 14America/Belem 2014 por em Coletivismo, Liberdade, Política e marcado , , , .
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