Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O conservadorismo e a agenda ambiental

roger-scrutonPor Roger Scruton.

Traduzido e adaptado por João Felipe Melo e Wendy Cardoso.

Não existe causa política mais favorável à visão conservadora que a do meio-ambiente, uma vez que atinge as três ideias fundamentais do nosso movimento: lealdade trans-geracional, prioridade do local sobre o global, e a busca por uma morada. Conservadores se identificam com a visão de sociedade de Burke[1], a qual seria uma parceria entre os vivos, os não nascidos e os mortos; acreditam na associação civil entre concidadãos mais do que na intervenção estatal; e aceitam que a coisa mais importante que os vivos podem fazer é acomodar-se num lar e passar este lar para seus descendentes. Oikophilia, o amor pelo lar, se adequa à causa ambiental e é surpreendente que o Partido Conservador[2] não tenha encampado esta causa.

O problema surge porque a agenda ambiental é realizada por globalistas. Problemas globais, nos dizem, necessitam de soluções globais, e soluções globais são soluções trans-nacionais, envolvendo a perda de soberania e a rendição a tratados que atam nossas mãos. Talvez exista razão para temer o que acontece. Mas, para os ativistas ambientais, muito mais importante é a manipulação política deste medo – que é destruir a soberania nacional e exercer um controle de cima para baixo pelos auto-proclamados especialistas nas atividades habituais do homem.

Além disso, ao concentrar o foco nas mudanças climáticas, os ativistas conseguiram distrair a atenção dos vários outros problemas ambientais que poderiam ser, e freqüentemente têm sido, resolvidos por pessoas imbuídas do espírito conservador. Problemas ambientais surgem quando sistemas homeostáticos falham – em outras palavras, quando o ciclo que estabiliza o equilíbrio natural é, por qualquer razão, destruído. O sistema homeostático mais estudado é o livre mercado, que retorna ao seu equilíbrio sob condições variáveis, desde que os participantes arquem com os custos de suas ações. Intelectuais de esquerda recusam a aceitar isto e constantemente inventam espantalhos – “neoliberalismo”, “ganância corporativista”, “falha do mercado” – para justificar a intervenção do Estado, e, depois, o controle pelos socialistas. Mas a intervenção pelo Estado é a maior causa de desequilíbrio, e as consequências ambientais podem ser vistas em todo o antigo mundo comunista – no caso soviético, na forma de total devastação. O mercado cessa de fornecer soluções aos problemas ambientais quando os participantes conseguem externalizar[3] seus custos – isto é, quando conseguem escapar das regras internas do sistema. É isso que dá ensejo à “tragédia dos comuns”[4].

A solução não é automaticamente pedir ao Estado que intervenha, mas primeiramente procurar os mecanismos sociais que fazem com que as pessoas suportem os custos de suas ações. (…) Isso é o que a oikophilia naturalmente nos induz a fazer, como Elinor Ostrom[5] havia mostrado, quando somos permitidos a considerar “recursos comuns” como compartilhados entre uma comunidade definida e localizada. Isso é o que o princípio conservador da confiança espontaneamente nos sugere.

(…) Vital a este movimento ambiental conservador é o amor à beleza. Através da arte, literatura e ativismo local, os ingleses dão voz à ideia de beleza como um recurso compartilhado, um fundo insubstituível de “capital social”. Beleza, eles reconheceram, funciona como uma barreira contra as brutalidades feitas de cima para baixo dos exploradores e engenheiros sociais.

Mas os demagogos ambientais estão determinados a passar por cima desses obstáculos. Poluir a paisagem com torres de energia e fazendas de energia eólica é atraente, não porque isso possui qualquer autoridade científica – se fosse pela ciência, elas teriam sido explodidas -, mas porque isso transmite a idéia de se tratar de um problema global. Destruir o lar que construímos em séculos é atingir os conservadores no âmago do seu modo de vida. É privar pessoas de sua primeira fonte de oikophilia e tornar o conservadorismo – a única perspectiva política que já fez alguma coisa pelo meio-ambiente – irrelevante.

Além disso, é através da busca pela beleza que podemos resolver o nosso problema ambiental mais urgente, que é a necessidade de novas moradias. As pessoas resistem ao desenvolvimento em larga escala porque sabem que isso irá produzir feiúra. Arquitetos conservadores como Leon Krier em Poundbury e John Simpson em Swindon mostraram que não precisa ser assim, e que podemos aprender com a nossa arquitetura tradicional como construir de forma a valorizar a vizinhança, e de forma a produzir moradias de preços acessíveis. Pessoas protestam contra casas amorfas que destroem a paisagem de suas janelas. Mas ninguém protesta em Poundbury[6], exceto os arquitetos modernistas que sentem a ameaça que isso representa ao seu monopólio.

A parte triste é que o Partido Conservador disse muito pouco para esclarecer o que está em jogo. Por que palavras antiquadas como confiança, comunidade, beleza e morada tão raramente saem da boca daqueles que são agora, pelo menos nominalmente, encarregados? E por que a agenda ainda é definida por aqueles para os quais as mudanças climáticas, as energias renováveis e o aquecimento global definem a questão ambiental, e para os quais as soluções favoráveis envolvem a total destruição das coisas que amamos?

Notas –

[1] Edmund Burke: filósofo e político inglês do século XVIII, referência do conservadorismo moderno.

[2] Refere-se ao Conservative Party inglês.

[3] Transferir gastos e responsabilidades para terceiros ou para o Estado.

[4] Superexploração de bens comuns, isto é, acessíveis a todos, que terminam por exauri-los.

[5] Cientista política americana, primeira mulher a receber o prêmio Nobel em economia, estudiosa do uso e manejo de bens comuns.

[6] Bairro da cidade de Dorchester, de inspiração urbanística neo-tradicionalista. Ver movimento”Urban Village”.

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