Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Fé e razão

joaquimNabucoPor Joaquim Nabuco

(…) A fé, não há como negar, como um órgão intelectual totalmente diferente, pode ser anulada por falta de exercício; se vocês a exercitam, ela se desenvolve; se vocês não a usam, ela se atrofia. A mesma coisa seria verdadeira quanto à ciência. Se é só a natureza que os atrai com milhares de surpresas espantosas espalhadas por tudo, vocês as consumiriam em sua vida apenas no mundo dos musgos e dos fetos; e, nessa absorção do detalhe infinito, a fé, assim como outras faculdades de seu espírito, seria reduzida a bem pouco. Da mesma maneira, se é a ordem moral do universo, e antes de tudo a consciência de que vocês fazem parte, que os impressiona mais, então a própria ciência vai adquirir, para vocês, um caráter quase religioso.

Como vocês preferem que o mundo seja iluminado, pela ciência ou pela fé? Haverá quem diga que toda a questão está aí. Não! Toda a questão não está aí. Em primeiro lugar, a fé e a ciência nunca iluminam a mesma superfície da alma, nem as mesmas verdades. Depois, se uma dessas duas luzes se apagasse, a outra seria forçada a reacendê-la para que ela mesma não se  apagasse. O que interessa mais profundamente ao homem não é o que está no fundo das coisas, a conexão exata dos fenômenos, que a ciência investiga e que faz vibrar sua curiosidade apaixonada, não é o como, mas sim o porquê, que é sua razão de ser, sua posição no universo, seu destino. O que os sábios investigam em suas buscas nos laboratórios é que uma solução, talvez provisória, mas suficiente, seja dada à questão primordial. Ou então essa questão só receberá uma solução científica definitiva – se alguma vez ela tivesse de ter uma – no fim das mais complicadas buscas. Estamos bem longe do dia em que a fisiologia, a química, a  sociologia, a astronomia, e não sei que outras ciências mais, poderão dar à sociedade uma base positiva que  substitua a base religiosa, considerada provisória. Foi essa solução “provisória” que tornou possível a fixação de nossos instintos mais elevados em conceitos morais e a distribuição desses conceitos em um arcabouço social definitivo. A ciência tem todos os poderes, exceto o de desinteressar o homem do problema de sua existência e de seu destino; e, já que ela não o resolveu por si mesma, é inútil querer pôr no lugar da fé convencional um vazio igualmente convencional. Foi prometido que será encontrada um dia ou outro nos laboratórios a solução do nebuloso assunto do século XX. E até lá? A humanidade jamais aceitará para sua base o vazio, mesmo a título provisório; é preciso um terreno mais sólido para o caule que ela ergue para seus filhos.

No entanto, a fé não está ameaçada de lado algum pela ciência. Na química, na biologia, na astronomia, não há descoberta possível que ela possa temer. Ela tem certeza de que nem o verdadeiro nem o bem serão decompostos por análise alguma, e, quanto a Deus, o cerco da ciência em volta dele é impossível; não se cerca o infinito, ele é inexpugnável.

De onde poderia, então, vir o golpe fatal? É a psicologia que deve derrubar a fé pela base, provando que a alma não passa de uma reverberação do corpo? Para onde iria, digamos, a alma imortal, no dia em que se provasse, nos anfiteatros de anatomia, que não existe uma só função intelectual que não resulte de uma impressão material sobre o cérebro e seus anexos, e que as mais elevadas especulações da metafísica são apenas sensações transformadas por uma sutilização progressiva ilusória? Nesse dia, a fé ainda continuaria a mesma. Pois ela não provém de uma religião que jamais diferenciou a alma do corpo, e ela mesma não conservou o dogma da ressurreição da carne? Restaria à fisiologia provar cientificamente que Deus não poderia, após milhares de anos, ressuscitar os corpos – o que seria uma tarefa pesada – já que eles derivaram de um germe e que na natureza nada se perde. Contudo, estamos bem longe da época em que a força intelectual, seja qual for sua proveniência e sua maneira de se produzir, será conhecida pela ciência, como as outras forças. No tempo de Tales, considerava-se a eletricidade um fenômeno do âmbar amarelo: hoje se sabe que é propriedade de todos os corpos. Das buscas, pelas quais se espera o fim da alma imortal, poderia bem resultar a  característica divina da inteligência.

Fonte: NABUCO, Joaquim, 1849-1910. A desejada fé / apresentação de Luiz Paulo Horta ; texto em francês estabelecido por Claude-Henri e Nicole Frèches ; tradução para o português por Ruth Sylvia de Miranda Salles. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 184 – 186.

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Publicado às 18 18America/Belem junho 18America/Belem 2014 por em Civilização, Humanidade, Joaquim Nabuco, Moral, Religião e marcado , , , , .
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