Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Democracia dos Vivos e dos Mortos

ImagemPor Fabio Bertato
Há uma nova tradição que garante que nenhuma tradição é boa. Seus adeptos não percebem que é impossível viver sem seguir algum tipo de tradição, nem que seja aquela que diz que nenhuma deve ser seguida: a tradicional hostilidade contra a tradição. Critica-se a educação tradicional, a família tradicional, a religião tradicional, os valores tradicionais etc. Parece que o adjetivo é sinônimo de coisa ruim. Toda- via, todos estamos imersos em alguma tradição (ou em vá- rias). Posso não me dar conta disso, mas se uso o relógio no pulso esquerdo, estou seguindo uma tradição. Se não uso relógio, também… Tradição (do latim tradere; entregar, transmitir) pode significar muitas coisas. Pode- mos considerá-la como algo que é trazido ou transmitido do passado para o presente.

Chesterton dizia que tradição é o mesmo que dar direito a voto para a mais obscura de todas as classes: nossos ancestrais. Tradição é a democracia dos mortos.É a recusa em aceitar a aristocracia dos vivos. É o elo democrático que nos une com a totalidade dos seres humanos: “A democracia nos diz para não negligenciarmos a opinião de um bom homem, mesmo que ele seja nosso cavalariço, a tradição nos pede para não negligenciarmos a opinião de um bom homem, mesmo que ele seja nosso pai”.
Obviamente há péssimas tradições, como a da escravidão ou a da “iniciação” dos rapazes em prostíbulos. Não se trata da aceitação irrefletida da tradição. Esta pode ser boa ou má, verdadeira ou falsa, mas certamente algo que deve ser levado em conta. A recusa da tradição é uma consequência da crença de que tudo que existe é imperfeito e, portanto, precisa ser transformado. Reformas, revoluções e inovações estão na ordem do dia. Alguns reformadores estão certos sobre o fato de que algumas coisas precisam mudar, todavia estão engana- dos sobre o que precisa ou não ser mudado. Contraria- mente ao hábito medieval de disfarçar ideias novas com roupagens velhas, o homem moderno especializou-se em chamar novos os mais antigos farrapos, apresentando velhos erros como verdades novas. Assumem os opositores da tradição que a sociedade segue uma lei de evolução, em constante aprimoramento. Segundo eles, estamos no ápice da História e nossos antecessores estavam em estágios mais primitivos. Todavia a sociedade é um sistema composto de indivíduos livres, os seres humanos, e estes são capazes de aprendizagem, que pode criar hábitos positivos (virtudes) e hábitos negativos (vícios).

As sociedades podem, por- tanto, melhorar ou piorar, podem prosperar ou ser extintas. Evolução e História não podem ser confundidas. As tradições são compostas dessas virtudes e vícios, adquiridas pela liberdade, ainda que tenham se consolidado almejando apenas a plenitude do todo, isto é, a busca do bem, a felicidade. Poderíamos denominar Tradição, com “T” maiúsculo, ao conjunto das virtudes ou verdades morais comuns às tradições oriental, platônica, aristotélica, estoica, cristã, etc. Algumas dessas são: a caridade, o respeito aos mais velhos, a justiça, a misericórdia, o respeito à vida, dentre outras. Esta Tradição deveria ser considerada a doutrina mínima do valor objetivo, medida de nossos atos e reflexões. Se alguém não tem muito respeito pelos idosos, é necessário reconhecer que, diante da Tradição, isso é um defeito.

Do mesmo modo que um indivíduo pode reconhecer-se daltônico. A não ser que deseje impor filosofias ou leis que digam que o mundo é preto e branco… Cabe a cada geração ouvir os votos de seus antepassados e julgar criticamente qual conteúdo deve ser mantido e qual deve ser extinto, qual está de acordo com a Tradição, ou não. Entre a negação a priori e a aceitação irrefletida de valores tradicionais, parece salutar eleger aquela tradicional via do meio, estabelecida por Aristóteles, Buda e São Paulo, que garante que “a virtude está no meio” e ensina que devemos testar todas as coisas e ficar com o que é bom. É sempre bom ter um referencial, mesmo que seja a velha democracia estendida aos mortos, afinal, nesta vida, todos somos “como um violinista em um telhado — tentando arranhar uma simples e bela melodia, sem quebrar o pescoço”.

Fonte: Círculo de Estudos Políticos

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Publicado às 5 05America/Belem junho 05America/Belem 2014 por em Civilização, Conservadorismo, Democracia, G. K. Chesterton, Indivíduo, Política e marcado , , , .
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