Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A maravilha da cooperação

ImagemPor Russel Roberts

Uma das grandes virtudes da economia é a forma pela qual ela esclarece o que não é visto, o que está escondido. Frédéric Bastiat, em seu ensaio clássico, “O que se vê e o que não se vê”, analisa as conseqüências econômicas de um simples ato de vandalismo, uma vidraça quebrada. Nós vemos uma vidraça quebrada. Nós vemos, ou imaginamos ver, as conseqüências de uma vidraça quebrada – mais dinheiro vai para o vidraceiro. O que é mais difícil de se imaginar é aquilo que não se vê: a atividade econômica que não acontecerá porque a vidraça deverá ser consertada.

Esse exemplo simples nos lembra de como a realidade da escassez é importante, por restringir nossas escolhas em determinado momento. Bastiat usou a metáfora da vidraça quebrada para criticar as recomendações políticas cujas promessas de sucesso freqüentemente ignoram a inevitável escassez que sempre acontecerá em um determinado momento – os recursos utilizados para uma finalidade deixam de ser utilizados para outras finalidades.

Bastiat também tinha outra idéia sobre o que se vê e o que não se vê, sendo essa menos apreciada do que sua clássica metáfora da vidraça quebrada. No capítulo 18 de Sophismes économiques, Bastiat pergunta por que ninguém dorme preocupado em Paris, pensando se o pão e outros produtos vão estar disponíveis para compra pela manhã:

Ao entrar em Paris, que tinha vindo visitar, eu me dizia: aqui há um milhão de pessoas, que morreriam em poucos dias se provisões de toda espécie não chegassem a essa vasta metrópole. A imaginação se assusta ao estimar a vasta multiplicidade de objetos que precisam de cruzar amanhã seus portões, caso contrário a vida dos habitantes sofreria com a fome, a desordem e o roubo. E no entanto todos dormem agora, sem que seu sono pacífico seja perturbado um único instante pela idéia de uma perspectiva tão assustadora… Como chega todos os dias a esse imenso mercado, sem faltas nem excessos, aquilo que é necessário? Qual é o poder engenhoso e secreto que preside a impressionante regularidade de movimentos tão complciados, regularidade na qual cada um tem uma fé tão despreocupada, ainda que sua vida e bem-estar dele dependam? Esse poder é um princípio absoluto, o princípio da liberdade de troca.

Na verdade, existem aqui dois aspectos do que não se vê. Primeiro, é simplesmente maravilhoso que esse imenso problema de coordenação e cooperação seja resolvido diariamente sem que esteja a cargo de ninguém resolvê-lo. Será que alguém na padaria, na banca de jornal ou na lanchonete pára para apreciar esse extraordinário feito da civilização? A origem dessa falta de reconhecimento é a qualidade da coordenação. O sistema funciona tão bem que nós nem mesmo notamos que ele está em funcionamento. Se nunca paramos para nos maravilharmos com ele é porque raramente vemos o sistema falhar.

Quando foi a última vez que você entrou em um café e descobriu que eles não tinham croissants ou baguetes? Eles sempre estão lá, frescos e a um preço acessível.

O segundo aspecto que não se vê é que alguém, por algum acaso, acabe percebendo que esse sistema não administrado funciona maravilhosamente, ele ou ela iria lutar para explicar como esse fenômeno é alcançado. Como, todos os dias, milhões de pessoas cooperam com outras para terem baguetes no café da esquina? Não existe nenhuma secretaria, agência governamental ou núcleo central de onde todo o comércio se origina. A teia de conexões que mantém o sistema unido não é vista.

Neste artigo, eu desejo destacar algumas das tentativas que os economistas fizeram no passado para esclarecer essa ordem, freqüentemente despercebida e descoordenada, que emerge criando riquezas quase sempre vistas como corriqueiras em nosso dia a dia.

Bastiat não foi o primeiro a apontar as maravilhas da coordenação. Essencialmente, a cooperação que sustenta o processo é guiada pela especialização e a pela divisão do trabalho. Portanto, não chega a ser surpreendente que Adam Smith, que inicia A Riqueza das Nações com a discussão da divisão do trabalho e suas propriedades de produção de riqueza, peça aos seus leitores que se maravilhem com o poder da especialização, com a divisão do trabalho e com a cooperação invisível de milhares de pessoas para a produção de um simples casaco de lã:

Se observarmos o vestuário do mais simples artífice ou operário de uma nação civilizada e desenvolvida, verificaremos que o número de pessoas empregadas nas indústrias que de algum modo contribuíram, por pouco que fosse, para que ele desfrute desse vestuário excede qualquer cálculo. Uma capa ou um casaco de lã, por exemplo, que cobre um pobre operário, por mais tosco ou grosseiroa que possa parecer, é produto do trabalho de um grande número de homens. É necessário que o pastor, o tosquiador, o cardador, o tintureiro, o lavrador, o fiandeiro, o tecelão, o pisoeiro, o alfaiate e muitos outros contribuam com o seu trabalho para a fabricação desses produtos simples. Quantos mercadores e carregadores não terão sido necessários para o transporte dos materiais de alguns desses trabalhadores, para outros, que por vezes vivem em povoados bem afastados uns dos outros!

Henry George, que se for conhecido pelos leitores modernos, deverá sê-lo por sua defesa da tributação sobre a propriedade ao invés de sobre a saída de mercadorias, também foi um excelente comunicador do conceito da cooperação invisível. Em Protection or Free Trade [Proteção ou Livre Comércio], ele escreve sobre uma família rural, preparando uma refeição com pão, peixe e chá, aquecidos pelo fogo da lenha:

O colono cortou a madeira. Mas foi preciso mais do que isso para se produzir a madeira. Se ela tivesse sido apenas cortada, ainda estaria jogada no local onde foi a cortaram. O trabalho de transportá-la foi tão importante para a sua produção quanto o trabalho de cortá-la. Dessa forma, as viagens em direção e a partir do moinho foram tão necessárias para a produção da farinha quanto o plantio e a colheita do trigo. Para a produção do peixe, o rapaz teve que andar até o lago e voltar. E a produção da água para a chaleira não precisou apenas do empenho da menina que a trouxe da fonte, mas também do uso do barril para coletar a água e da fabricação do balde usado para transportá-la.

Da mesma forma, o chá, cultivado na China, foi carregado por uma vara de bambu sobre os ombros de um homem até um vilarejo às margens de um rio e vendido a um comerciante chinês, que o transportou de barco até um porto. Lá, após ser embalado para a viagem oceânica, o chá foi vendido à agência de alguma casa americana e enviada através de um navio a vapor para São Francisco. Dali passou por uma estrada de ferro, por outra transferência de propriedade e para as mãos de um distribuidor de Chicago. O distribuidor, por sua vez, em busca de outra venda, o enviou para um lojista que o armazenou para que o colono o compre quando e na quantidade que quiser, da mesma forma que a água da fonte é armazenada em um barril para que esteja acessível quando for necessária.

O foco de George não é tanto nas maravilhas de toda a cooperação invisível, mas, pelo contrário, na importância de cada passo do caminho que nos permite receber esses bens. Nós podemos pensar em distribuidores, comerciantes e transportadores como sendo, digamos, menos importantes do que o padeiro que assa o pão, mas o padeiro não poderia assar o pão sem a entrega da farinha, sem a fabricação dos fornos e assim por diante.

Talvez, para o leitor moderno, o mais conhecido exemplo das maravilhas da cooperação invisível seja o excepcional ensaio de Leonard Read, “Eu, o Lápis”. Read afirma, falando em primeira pessoa, pela voz do lápis, que ninguém no mundo saberia como fabricar uma unidade dele:

Alguém deseja contestar minha afirmação anterior de que não há sequer uma pessoa na face da terra que saiba como me fazer?

Realmente, milhões de seres humanos participaram da minha criação, e nenhum deles conhece mais do que alguns dos outros. Agora, você pode dizer que estou indo longe demais ao relacionar os colhedores de café no Brasil, e em outros lugares, à minha criação, que essa é uma posição extremada. Mantenho minha posição. Não há uma única pessoa, em todas essas milhões, incluindo o presidente da companhia de lápis, que tenha contribuído mais do que uma mínima, ínfima porção de know-how. Do ponto de vista do know-how a única diferença entre o minerador da grafite e o lenhador em Óregon é o tipo do know-how. Nem o minerador nem o lenhador podem ser dispensados, tampouco se pode dispensar o químico da fábrica ou o trabalhador do petróleo – já que a parafina é um subproduto do petróleo.

Read enfatiza o aspecto não coordenado dessa inacreditável coordenação:

Há um fato ainda mais espantoso: a ausência de uma mente superior, de alguém ditando, ou direcionando forçosamente essas incontáveis ações que me permitem existir. Não há sinal da existência dessa pessoa. Em vez disso, nós encontramos o trabalho da mão invisível.

Ainda assim, é maravilhoso que haja baguetes esperando por mim no café. Sim, é maravilhoso que existam lápis em vários locais onde eu possa parar para comprar alguma outra coisa no caminho. Existem muitos casacos de lã, muito chá e, ainda mais impressionante, muitos carros, computadores e aparelhos de TV, produtos que são infinitamente mais complexos. Mas o que sustenta essa cooperação e que permite que esses produtos sejam montados por milhões de estranhos que trabalham sem saber que a cooperação está acontecendo?

Uma das mais profundas tentativas de esclarecimento desse processo foi o artigo de Hayek, “O Uso do Conhecimento na Sociedade”, publicado em American Economic Review, em 1945. Hayek não se contenta em simplesmente admirar-se de que existam lápis, pães, casacos e televisores. Há algo ainda mais maravilhoso e invisível que ele deseja que seus leitores vejam: a forma pela qual uma multidão descoordenada de trabalhadores, que trabalha para produzir esses produtos, responde à escassez ou outras mudanças externas.

Hayek queria mostrar a incrível coordenação do conhecimento amplamente descentralizado, que deve acontecer para lidarmos com diversos ajustes, como o fato da escassez. A resposta de Hayek, relacionada à referência de Bastiat ao interesse próprio e ao comércio, e à invocação da mão invisível feita por Read, é o sistema de preços, explicado por ele em detalhes.

É tentador dizer que Hayek estava se referindo ao que hoje chamamos de oferta e demanda. Infelizmente, os estudantes de hoje são ensinados que a oferta e a demanda requerem competição perfeita e conhecimento perfeito. Isso leva os estudantes a verem a oferta e a demanda como construções teóricas, de improvável aplicação no mundo real a não ser em casos ocasionais como o trigo.

Porém, Hayek tinha uma visão bem diferente do processo. Ele o via como imperfeito, mas eficiente:

Naturalmente, é provável que esses ajustes não sejam nunca “perfeitos” no sentido em que o economista os concebe em suas análises de equilíbrio. Mas temo que nossos hábitos teóricos de abordar o problema, baseados na suposição de que praticamente todos nós contamos com um conhecimento mais ou menos perfeito, tem-nos impedido de ver a verdadeira função do mecanismo de preços e nos levou a aplicar padrões errôneos no julgamento de sua eficiência. O maravilhoso é que em um caso como o da escassez de uma matéria prima, sem que se dite nenhuma ordem, sem que não mais que algumas pessoas saibam a sua causa, dezenas de milhares de pessoas cujas identidades não poderiam ser determinadas após meses de investigação, reduzam o uso dessa matéria prima em seus produtos; ou seja, se movam na direção correta. Essa é uma maravilha por si, mesmo que, em um mundo que muda constantemente, nem todos reajam de forma tão perfeita que suas taxas de rentabilidade se mantenham sempre constantes ou a níveis “normais”.

Eu tenho usado deliberadamente o termo “maravilha” para retirar o leitor de seu estado de complacência, a partir do qual freqüentemente observamos o funcionamento desse mecanismo como algo natural. Eu estou convencido de quese ele fosse resultado de uma ação humana deliberada e se as pessoas guiadas pelas mudanças de preços compreendessem que suas decisões transcendem em muito o seu objetivo imediato, esse mecanismo teria sido aclamado como um dos grandes triunfos da mente humana. Seu azar é duplo, no sentido que não é o produto da invenção humana e que as pessoas guiadas por ele, geralmente, não sabem por que são levadas a fazer o que fazem.

Uma das virtudes da exposição de Hayek, embora seja estatisticamente insípida comparada com os outros exemplos que mostrei aqui, é sua ênfase em como a cooperação invisível soluciona o problema central da ordem econômica moderna. Como você decide quantas baguetes, lápis ou carros uma sociedade precisa? Como as respostas àquelas questões mudam à medida que as circunstâncias e o conhecimento mudam? Eu quero usar isso como um ponto de partida para um exemplo de cooperação invisível que acontece hoje.

Durante os próximos cinco ou dez anos, espera-se que centenas de milhões de chineses abandonem o campo e se mudem para as cidades. Essa extraordinária migração irá demandar que milhões de ajustes aconteçam, para assegurar que nossas vidas aqui nos Estados Unidos não sejam prejudicadas. Todos aqueles chineses, recém-chegados às cidades, usarão mais lápis, beberão mais cafés, comprarão mais bicicletas, comprarão mais carros e daí por diante. Será que haverá produtos suficientes para chegarem até nós, que estamos aqui, fora da China?

Certamente, essa suposta migração causará um distúrbio imenso. Mas será que deveríamos nos preocupar com isso? Que precauções deveríamos tomar para suavizar essa transição?

Da mesma forma que os parisienses de Bastiat, nós não perdemos nosso sono, preocupados com essas mudanças. A transição não será administrada por um comitê do congresso ou por um conselho presidencial, que se encarregariam de evitar a crise. A transição será enfrentada pelo sistema de preços e nós nem mesmo a notaremos. A razão da minha confiança é baseada na minha compreensão teórica de como os mercados funcionam da forma que Hayek os descreveu. Porém, boa parte da minha confiança vem de evidências dos últimos 20 anos, quando centenas de milhões de chineses fizeram a mesma jornada que estamos prevendo para o futuro. Foi a maior migração da história da humanidade e eu acho que você nem a percebeu. Pouco mudou o mundo à nossa volta. Os chineses não compraram todas as bicicletas, nem todos os cedros para lápis ou todos os campos para a produção de café. De algum jeito, nosso sistema econômico cuidou dessa transição de forma tão eficiente, que a maioria de nós nem percebeu que ela aconteceu.

Essas mudanças estão acontecendo o tempo todo. O sistema de preços, junto com os lucros que permitimos aos produtores ganharem por responderem de forma eficiente aos preços, mantém nossa vida econômica em ordem, mesmo diante de todas essas mudanças. Os professores de economia, inclusive este aqui, deveriam estar procurando formas de iluminar os trabalhos invisíveis desse incrível sistema. É um sistema que é freqüentemente descrito como competitivo. Porém, ele é um sistema essencialmente cooperativo. Ninguém o projetou. Ele funciona sem que ninguém esteja no comando. Portanto, maravilhe-se.

Fonte: Ordem Livre

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Publicado às 5 05America/Belem junho 05America/Belem 2014 por em Civilização, Conservadorismo, Economia, Indivíduo, Livre Mercado, Moral, Russel Roberts, Tradição e marcado , , , .
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